Veronika Loss
O Desespero de Veronika Loss. Um de meus contos primordiais. Foi encenado em 2000 na Casa de Teatro e no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Direção impecável de João Pedro Gil, atuações memoráveis de Liane Venturella e Kike Barbosa. Música de Cristiano Hanssen, luz de Batista Freyre. Criação gráfica do cartaz de Nelson Ebelt, talentoso amigo. O conto, uma homenagem a Freud, expressionismo alemão, rock britânico dos 80, mitos gregos, ao filme All About Eve-A Malvada, ao teatro, às pálidas deusas em uma intensa história de amor, angústia, morte. A crise emocional de uma atriz e um crítico teatral. Trágica, bela...Escrita em um período conturbado, mas fértil artisticamente, após a separação de uma bela ninfa pálida. Rey Fontan e suas dores para poder criar. O sofrimento é essencial para a grande arte. Mais do que um enredo envolvente, há diálogos e aforismos densos, brilhantes algumas vezes. O jornalista, crítico, cantor, psicanalista, vampiro, lord britânico charmoso Esteban Rey Fontan assina embaixo...
Abaixo, o Veronika Loss. Quem quiser ver, há o dvd da gravação da encenação no São Pedro.
O DESESPERO DE VERONIKA LOSS
Fixamente. Abrupto, o sangue escorria entre os dedos. Um vermelho denso, ferido no engano. Ele chorava, chorava o sangue. Felizmente, não tenho depressão. Agora, tenho depressão e desespero. E um muito de morte. Não houve créditos finais.
Três dias. Há três dias sentada estava, deitada estava, fechada estava. Revistas sobre cinema ao lado de sujas calcinhas avermelhadas. Cheirava-as. O odor das fezes, da urina. Como é bom poder me sentir, me tocar, beijar meus lábios... Droga, porque fui aprender o gosto destes doces sagrados após os 30 anos? És bela, tens mãos macias, lábios finos, olhos Vivien Leigh. Por que não posso me amar?Por que tenho que sempre humilhar minha imagem diante destas baratas que nada mais são do que homens?
Faço a barba com leve prazer. Sinto o poder de rasgar a pele no momento apropriado. O espelho é minha cara. Corto a garganta. Sangro. Sorrio. Três dias. Três dias preso. Livre no quarto. Não mereço nada do que me foi dado. Nada tenho. Alguns cabelos caídos, outros entrando na senilidade. As três mil bolinhas de papel amassadas no quarto. Contei uma por uma. Cálculo. Acho que vou me masturbar, ver se ainda consigo jogar o gozo no retrato.
Abri a persiana.
-Você não compreende nada.
-Somos tão hipócritas que nem nossa própria hipocrisia pode nos afastar.
-Se eu disser que não quero mais?
-Não podes.
-Por quê?
-Teu rosto fica inchado quando mentes.
-Eu não posso ter filhos.
-Por isto a amo. E teu nariz é pequeno.
-Não sou fértil.
-Pouco me importa. Sejamos o fim da reprodução. E te amo. Mas talvez não. Talvez não possa mais.
-O que?
-Te matar.
-Então não me amas. Sem morte não há amor.
O sol. Odeio o sol. Fere minha retina esta claridade. Fechei as persianas. Não sei a razão de querer mudar algo em minha rotina hoje. Acordei estranha. Talvez tenha bebido pouco à noite. Talvez o gozo frio nas mãos tenha me perturbado.
O velho, bom e clássico R.F. Que prazer ler estas páginas. Pálidos seios na tempestade. O universo que nos inundava em sombras. Acenda a chama para mim. Enquanto o vento sopra. Enquanto o vento sopra ventos novamente. Belo. Mas vou ter que me atirar.
Detesto ouvir esta criança chorando. Inferno. Deve ter uns 3 anos. Quem sabe um. Demônio. E pais jovens. O casalzinho deve ter seus 22, 23. Daqui a seis meses devem estar separados, os idiotas, e o que eu tenho a ver com a vida dos outros? Os vizinhos que fiquem onde estão. Ah, droga. Tridente!Deixe-me dar um tapa no rosto. Ahh!!Doeu!Outro!Uhh!!Bom. Razoavelmente, bom. Chega.
Chave na ignição. Arrumar o tapa-olhos. Pareço o Fritz Lang. Que coisa fantástica. Pouca gasolina. A faca. A morte que cansa. Por que estou saindo? Será que ninguém entrou no apartamento? Deixe-me retornar. Passos. O velho do 308 com seu cachorro. A ninfeta da terceira idade. Mas ela tem uma face pálida dengosa. Algumas ruguinhas. Peito forte. Peito forte? Que termo, ah doutor R.A, estás perdendo sua elegância. Escadas. Elevador. Escadas. 66 degraus. Porta. Cheiro de mofo. Sala. Quarto. Cozinha. Banheiro. Tudo igual. Vou me atirar no sofá. Não. Vou sair. Vou sair. Foda-se.
Não gosto de andar com esta muleta. Vou jogá-la fora. De início, queria sentimentos de piedade, mas ninguém sente mais nada hoje em dia. Era glacial. Foda-se. Estou cansada de tudo isto. Sair. Não acredito mais na felicidade do quarto. Nem do mundo. Para que comprei esta maldita muleta? Devo ter enlouquecido...
Fico confuso com estes milhares de carros imundos ao meu redor. Estes rostos medíocres.
Não suporto estas pessoas sem olhos. Me vêem como um corpo. Não vêem nada.
-Você estava bem como Eve.
-Fui melhor como Petra von Kant.
-Não, sou o crítico, você, a cabeça na forca.
-Nosso relacionamento está ficando doentio. Estes jogos já passam dos limites.
-Não existem limites para seres como nós. Somos pessoas improváveis. Um traço em comum. Desprezamos a humanidade e não podemos amar nem ser amados. Nossa ambição é insaciável e temos talento. Nós dois nos merecemos. O bêbado e a insana. Meus cabelos têm seu perfume de sangue.
-Não nasci para partilhar de ódios, somente de amor.
-Trágica e coloquial. És uma atriz. Falsa. Enganadora.
Não aguento mais este movimento. Vou acelerar. Sumir. Bater. Me quebrar. Morrer. Agora.
Vou ter que correr, fugir. Sinal. Abre, abre, estou indo. Agora.
A mulher.
O carro.
Ai!!!!
Ahhh!!!!
-Não sei se te amo.
-Também não.
-Eu te amo.
-Eu também. Te odeio. Por isto somos perfeitos.
Abrir a porta do carro. Ela respira. E levanta.
Estou bem, estou bem. Podem sair, não preciso de ajuda.
Creio que acelerei um pouco, Eu também estava correndo, Me desculpe, Desculpe-me também, Você tem belos olhos, Seu sorriso é atraente, Foi um belo acidente, Talvez sim.
-Sei que choras durante o sono pondo a nu todos os meus erros. Deixando em minha boca o sabor de um certo desespero. Mas será que foi tão bom assim que não poderá voltar a sê-lo? Quando o amor, o amor nos dilacerar de novo. O amor, o amor nos dilacerar novamente. Minha adorável fria.
Gosto muito de uísque. Torna as pessoas menos insuportáveis ao meu redor. Bebo o que me for possível.
-Você é ótima.
-Não adianta me bajular.
-Não te adulo, te desprezo.
-Mentira.
-Desprezo e adoração são construções adjuntas.
-Você me trai?
-Só com você. Só te traio com você.
-Não tenho medo de amar. Somos especiais. Exceção. Todos temem o amor enquanto nos amamos.
Meus melhores amigos são médicos, Os meus, remédios, Hoje, escutava uma música que dizia: Alguém atirou na nostalgia pelas costas, alguém atirou em nossa inocência, na sombra de seu sorriso, Gostei, concordo com as perdas,... este bar me satisfaz, está sempre vazio, Do que você gosta? Ahhn, que ninguém me incomode, e que todos me adorem, e você? Que me cuspam e façam orações em meu nome, És santo? Talvez Deus, Acreditas nele? Tanto quanto em mim, e sou um nada, És casado? Não, Namorada? Sozinho, e você? Ninguém, tive uma paixão que acabou sem palavras, Sem palavras? O relacionamento estava quente, estranhamente duradouro, seis meses, numa semana não houve mais trocas, nem telefonemas, nem compreensão do que ocorreu, ele não ligou mais, eu tampouco, acabou, Assim, sem explicações? Não havia cobranças, Sempre existem cobranças, De nossa parte, só tínhamos espaço para culpas, De quem foi o erro? De ninguém, terminou porque deu certo, os momentos sadios, não, era uma doença, um câncer benigno, O que não existe, por sinal, e você é estranha, És mais perturbador, Também tive uma relação problemática recente, E..., Ela morreu, Ah., Suicidou-se, Por quê? Ela me amava, estava alegre e não pôde suportar este bem-estar, ela sofria, não estava acostumada a sorrir, fui seu demônio ao fazê-la sorrir, Era louca? Não, completamente livre, sem culpas, Não entendo, Não há o que explicar ou compreender, Era jovem? 28 anos, psicóloga, horários fechados, profissional competente, E morta, É, morta, Não quero ouvir mais nada, Não quero mais falar sobre isto, Chegou um cliente, Não o conheço, Vamos embora, Vamos, Por que aceitei seu convite para vir aqui? Não sei, Você é estranho, E único, É, realmente, Vamos? Vamos.
-Como resistir ao apelo de uma mulher?
-Negando- a .
-Adoráveis em sua infinitude. Mulheres são oceano, divindades. Você, por pior que seja, não passa de uma deusa. Talvez bruxa má. Mas permanece deusa. Sinto fascínio por suas palavras sussurradas, seus brancos seios, até a volúpia de tua insignificância. Amo as mulheres que existem em ti. Difícil compreendê-las. Como não adorá-las?
- Por que mudaste o discurso? Sempre tão arrogante, agora tão bebê.
-Gênio. Desgostoso de tudo. Mas, seus lábios são uma religião. Temos que naufragar juntos, ser emparedados, cobertos de neve, levados pelo tempo ao céu longínquo, que cuspam sobre nossos cadáveres.
-Você é absolutamente estranho.
-Tanto quanto você. E, mais do que isso, obsessivos, repetitivos, és adorável.
Meu apartamento, a sala, De quem é a foto? Ninguém, Quem é ela? A suicida?, Sim, Te dói falar sobr ..., Chega, não quero falar mais, você tem uma boca tão linda, quer beber algo? Não, Gosto de ver seus lábios... finos... língua..., Onde ela está enterrada? Por favor, não..., Onde? Vamos embora, Tudo bem, não queres... ,Não, não quero mais nada, Nada queremos desde o útero, Vamos, Para onde? Não sei, adoro o vento, posso bater minhas sombrias asas, Me amas? Não sei se posso te matar, Já nos conhecemos há ...horas, Não basta, O tempo mata, O vento também, deix..., Não, não beije minha orelha, Gosto disto, Talvez eu adore, mas detesto, Tenho sonhado com facas voadoras...
-Algumas pesssoas morrem mais do que outras.
-Por quê?
-A morte não inventa motivos, ela os sente.
-Tens medo?
-Não. Talvez.
A cidade está calma, Não tenho condições de suportar a multidão, Temos nomes? Já viste o filme? Não, vi todos os possíveis e inimagináveis até três meses atrás, depois não resisti, A que? A morte, Eu também, mas não deixei de ir ao cinema, Vejo fantasmas nas projeções, Veronika Loss, O que? Veronika Loss, meu nome, Ah, prazer, R. A, agora, conte-me tudo sobre você, Para que? É necessário confiar no passado, de que lembras? Tudo que não importa, Pois é isto que quero ouvir, Certo, então, sem lágrimas amargas ou sorrisos frios, apresento-te meu olhar, embora saibas tudo: ao zero ano, nasci. Chorei copiosamente. Aos 3 anos, vomitei no colo do pai. Ele me bateu. Aos 5, caí da bicicleta. Minha tia me bateu. Aos 8, quebrei um quadro. Minha mãe me beijou. E me cortou com uma faca. Aos 10, menstruei. Chorei de medo. Aos 12, um garoto passou a mão em mim na Educação Física. Enrubesci. Aos 15, beijei na boca. Não gostei. Aos 16, transei pela primeira vez. Não gostei. Aos 20, traí meu namorado. Aos 22, abortei. Salvei minha vida. Aos 23, concluí a faculdade. Nunca trabalhei na área. Aos 24, meu pai morreu de câncer no fígado. Aos 25, minha mãe morreu de câncer na garganta. Aos 25, entrei em terapia. Aos 26, bati o carro. Fraturas e 2 dias de UTI. Aos 27, matei meu gato. Aos 28, transei com um homem de rua. Loucura. Aos 29, concluí Freud, Lacan. Aos 30, morri num acidente aéreo. Aos 31, renasci do trauma. Te conheci. Não sei se foi bom. Creio que de nada vale. Ou é a salvação.
Creio eu que de nada valha.
Vamos entrar no cinema.
-A arte desconstrói o artista. Eu, bela, tenho que suportar todas estas chatas pessoas que vêm me admirar. Coiotes. Delinquentes juvenis caçando autógrafos.
-O gênio pertençe a poucos, como nós.
Gostei muito de você como Eve, Suas críticas são contundentes, Somos perfeitos em nossa hipocrisia, e és uma bela atriz.
- Vamos morrer?
-Talvez. Hoje, quem sabe?
-Seria bom.
-A lâmina está afiada.
-No cinema.
-Tudo tão desconexo.
-Desde o acidente.
-É, estranha maneira de nos conhecermos.
-Corri.
-Acelerei.
-Caí.
-Conversamos na tragédia.
-Tragédia foi eu ter sobrevivido.
-Tens toda razão, Veronika Loss.
-Também te odeio, R. A ., mas te amo desesperadamente.
Nosso filme? Sim, desde o início, O Desespero de Veronika Loss, o título adequado, Diálogos magníficos, Os decorei, O Desespero de Veronika Loss... Veronika...Loss, A lâmina está afiada? Está, É nossa hora, É, sejamos o fim da reprodução, Me beije, Sim..., Agora, me mate, nos vendo, antes do final da sessão, deves continuar, o filme...a facada homicida, agoraaaa, a suicida... daqui a instantes, não teremos mais olhares vivos, ninguém para assistir aos créditos, ainda suspiro, na morte, na morte, meu amor!
-Você não compreende nada.
-Somos tão hipócritas que nem nossa própria hipocrisia pode nos salvar.
Abaixo, o Veronika Loss. Quem quiser ver, há o dvd da gravação da encenação no São Pedro.
O DESESPERO DE VERONIKA LOSS
Fixamente. Abrupto, o sangue escorria entre os dedos. Um vermelho denso, ferido no engano. Ele chorava, chorava o sangue. Felizmente, não tenho depressão. Agora, tenho depressão e desespero. E um muito de morte. Não houve créditos finais.
Três dias. Há três dias sentada estava, deitada estava, fechada estava. Revistas sobre cinema ao lado de sujas calcinhas avermelhadas. Cheirava-as. O odor das fezes, da urina. Como é bom poder me sentir, me tocar, beijar meus lábios... Droga, porque fui aprender o gosto destes doces sagrados após os 30 anos? És bela, tens mãos macias, lábios finos, olhos Vivien Leigh. Por que não posso me amar?Por que tenho que sempre humilhar minha imagem diante destas baratas que nada mais são do que homens?
Faço a barba com leve prazer. Sinto o poder de rasgar a pele no momento apropriado. O espelho é minha cara. Corto a garganta. Sangro. Sorrio. Três dias. Três dias preso. Livre no quarto. Não mereço nada do que me foi dado. Nada tenho. Alguns cabelos caídos, outros entrando na senilidade. As três mil bolinhas de papel amassadas no quarto. Contei uma por uma. Cálculo. Acho que vou me masturbar, ver se ainda consigo jogar o gozo no retrato.
Abri a persiana.
-Você não compreende nada.
-Somos tão hipócritas que nem nossa própria hipocrisia pode nos afastar.
-Se eu disser que não quero mais?
-Não podes.
-Por quê?
-Teu rosto fica inchado quando mentes.
-Eu não posso ter filhos.
-Por isto a amo. E teu nariz é pequeno.
-Não sou fértil.
-Pouco me importa. Sejamos o fim da reprodução. E te amo. Mas talvez não. Talvez não possa mais.
-O que?
-Te matar.
-Então não me amas. Sem morte não há amor.
O sol. Odeio o sol. Fere minha retina esta claridade. Fechei as persianas. Não sei a razão de querer mudar algo em minha rotina hoje. Acordei estranha. Talvez tenha bebido pouco à noite. Talvez o gozo frio nas mãos tenha me perturbado.
O velho, bom e clássico R.F. Que prazer ler estas páginas. Pálidos seios na tempestade. O universo que nos inundava em sombras. Acenda a chama para mim. Enquanto o vento sopra. Enquanto o vento sopra ventos novamente. Belo. Mas vou ter que me atirar.
Detesto ouvir esta criança chorando. Inferno. Deve ter uns 3 anos. Quem sabe um. Demônio. E pais jovens. O casalzinho deve ter seus 22, 23. Daqui a seis meses devem estar separados, os idiotas, e o que eu tenho a ver com a vida dos outros? Os vizinhos que fiquem onde estão. Ah, droga. Tridente!Deixe-me dar um tapa no rosto. Ahh!!Doeu!Outro!Uhh!!Bom. Razoavelmente, bom. Chega.
Chave na ignição. Arrumar o tapa-olhos. Pareço o Fritz Lang. Que coisa fantástica. Pouca gasolina. A faca. A morte que cansa. Por que estou saindo? Será que ninguém entrou no apartamento? Deixe-me retornar. Passos. O velho do 308 com seu cachorro. A ninfeta da terceira idade. Mas ela tem uma face pálida dengosa. Algumas ruguinhas. Peito forte. Peito forte? Que termo, ah doutor R.A, estás perdendo sua elegância. Escadas. Elevador. Escadas. 66 degraus. Porta. Cheiro de mofo. Sala. Quarto. Cozinha. Banheiro. Tudo igual. Vou me atirar no sofá. Não. Vou sair. Vou sair. Foda-se.
Não gosto de andar com esta muleta. Vou jogá-la fora. De início, queria sentimentos de piedade, mas ninguém sente mais nada hoje em dia. Era glacial. Foda-se. Estou cansada de tudo isto. Sair. Não acredito mais na felicidade do quarto. Nem do mundo. Para que comprei esta maldita muleta? Devo ter enlouquecido...
Fico confuso com estes milhares de carros imundos ao meu redor. Estes rostos medíocres.
Não suporto estas pessoas sem olhos. Me vêem como um corpo. Não vêem nada.
-Você estava bem como Eve.
-Fui melhor como Petra von Kant.
-Não, sou o crítico, você, a cabeça na forca.
-Nosso relacionamento está ficando doentio. Estes jogos já passam dos limites.
-Não existem limites para seres como nós. Somos pessoas improváveis. Um traço em comum. Desprezamos a humanidade e não podemos amar nem ser amados. Nossa ambição é insaciável e temos talento. Nós dois nos merecemos. O bêbado e a insana. Meus cabelos têm seu perfume de sangue.
-Não nasci para partilhar de ódios, somente de amor.
-Trágica e coloquial. És uma atriz. Falsa. Enganadora.
Não aguento mais este movimento. Vou acelerar. Sumir. Bater. Me quebrar. Morrer. Agora.
Vou ter que correr, fugir. Sinal. Abre, abre, estou indo. Agora.
A mulher.
O carro.
Ai!!!!
Ahhh!!!!
-Não sei se te amo.
-Também não.
-Eu te amo.
-Eu também. Te odeio. Por isto somos perfeitos.
Abrir a porta do carro. Ela respira. E levanta.
Estou bem, estou bem. Podem sair, não preciso de ajuda.
Creio que acelerei um pouco, Eu também estava correndo, Me desculpe, Desculpe-me também, Você tem belos olhos, Seu sorriso é atraente, Foi um belo acidente, Talvez sim.
-Sei que choras durante o sono pondo a nu todos os meus erros. Deixando em minha boca o sabor de um certo desespero. Mas será que foi tão bom assim que não poderá voltar a sê-lo? Quando o amor, o amor nos dilacerar de novo. O amor, o amor nos dilacerar novamente. Minha adorável fria.
Gosto muito de uísque. Torna as pessoas menos insuportáveis ao meu redor. Bebo o que me for possível.
-Você é ótima.
-Não adianta me bajular.
-Não te adulo, te desprezo.
-Mentira.
-Desprezo e adoração são construções adjuntas.
-Você me trai?
-Só com você. Só te traio com você.
-Não tenho medo de amar. Somos especiais. Exceção. Todos temem o amor enquanto nos amamos.
Meus melhores amigos são médicos, Os meus, remédios, Hoje, escutava uma música que dizia: Alguém atirou na nostalgia pelas costas, alguém atirou em nossa inocência, na sombra de seu sorriso, Gostei, concordo com as perdas,... este bar me satisfaz, está sempre vazio, Do que você gosta? Ahhn, que ninguém me incomode, e que todos me adorem, e você? Que me cuspam e façam orações em meu nome, És santo? Talvez Deus, Acreditas nele? Tanto quanto em mim, e sou um nada, És casado? Não, Namorada? Sozinho, e você? Ninguém, tive uma paixão que acabou sem palavras, Sem palavras? O relacionamento estava quente, estranhamente duradouro, seis meses, numa semana não houve mais trocas, nem telefonemas, nem compreensão do que ocorreu, ele não ligou mais, eu tampouco, acabou, Assim, sem explicações? Não havia cobranças, Sempre existem cobranças, De nossa parte, só tínhamos espaço para culpas, De quem foi o erro? De ninguém, terminou porque deu certo, os momentos sadios, não, era uma doença, um câncer benigno, O que não existe, por sinal, e você é estranha, És mais perturbador, Também tive uma relação problemática recente, E..., Ela morreu, Ah., Suicidou-se, Por quê? Ela me amava, estava alegre e não pôde suportar este bem-estar, ela sofria, não estava acostumada a sorrir, fui seu demônio ao fazê-la sorrir, Era louca? Não, completamente livre, sem culpas, Não entendo, Não há o que explicar ou compreender, Era jovem? 28 anos, psicóloga, horários fechados, profissional competente, E morta, É, morta, Não quero ouvir mais nada, Não quero mais falar sobre isto, Chegou um cliente, Não o conheço, Vamos embora, Vamos, Por que aceitei seu convite para vir aqui? Não sei, Você é estranho, E único, É, realmente, Vamos? Vamos.
-Como resistir ao apelo de uma mulher?
-Negando- a .
-Adoráveis em sua infinitude. Mulheres são oceano, divindades. Você, por pior que seja, não passa de uma deusa. Talvez bruxa má. Mas permanece deusa. Sinto fascínio por suas palavras sussurradas, seus brancos seios, até a volúpia de tua insignificância. Amo as mulheres que existem em ti. Difícil compreendê-las. Como não adorá-las?
- Por que mudaste o discurso? Sempre tão arrogante, agora tão bebê.
-Gênio. Desgostoso de tudo. Mas, seus lábios são uma religião. Temos que naufragar juntos, ser emparedados, cobertos de neve, levados pelo tempo ao céu longínquo, que cuspam sobre nossos cadáveres.
-Você é absolutamente estranho.
-Tanto quanto você. E, mais do que isso, obsessivos, repetitivos, és adorável.
Meu apartamento, a sala, De quem é a foto? Ninguém, Quem é ela? A suicida?, Sim, Te dói falar sobr ..., Chega, não quero falar mais, você tem uma boca tão linda, quer beber algo? Não, Gosto de ver seus lábios... finos... língua..., Onde ela está enterrada? Por favor, não..., Onde? Vamos embora, Tudo bem, não queres... ,Não, não quero mais nada, Nada queremos desde o útero, Vamos, Para onde? Não sei, adoro o vento, posso bater minhas sombrias asas, Me amas? Não sei se posso te matar, Já nos conhecemos há ...horas, Não basta, O tempo mata, O vento também, deix..., Não, não beije minha orelha, Gosto disto, Talvez eu adore, mas detesto, Tenho sonhado com facas voadoras...
-Algumas pesssoas morrem mais do que outras.
-Por quê?
-A morte não inventa motivos, ela os sente.
-Tens medo?
-Não. Talvez.
A cidade está calma, Não tenho condições de suportar a multidão, Temos nomes? Já viste o filme? Não, vi todos os possíveis e inimagináveis até três meses atrás, depois não resisti, A que? A morte, Eu também, mas não deixei de ir ao cinema, Vejo fantasmas nas projeções, Veronika Loss, O que? Veronika Loss, meu nome, Ah, prazer, R. A, agora, conte-me tudo sobre você, Para que? É necessário confiar no passado, de que lembras? Tudo que não importa, Pois é isto que quero ouvir, Certo, então, sem lágrimas amargas ou sorrisos frios, apresento-te meu olhar, embora saibas tudo: ao zero ano, nasci. Chorei copiosamente. Aos 3 anos, vomitei no colo do pai. Ele me bateu. Aos 5, caí da bicicleta. Minha tia me bateu. Aos 8, quebrei um quadro. Minha mãe me beijou. E me cortou com uma faca. Aos 10, menstruei. Chorei de medo. Aos 12, um garoto passou a mão em mim na Educação Física. Enrubesci. Aos 15, beijei na boca. Não gostei. Aos 16, transei pela primeira vez. Não gostei. Aos 20, traí meu namorado. Aos 22, abortei. Salvei minha vida. Aos 23, concluí a faculdade. Nunca trabalhei na área. Aos 24, meu pai morreu de câncer no fígado. Aos 25, minha mãe morreu de câncer na garganta. Aos 25, entrei em terapia. Aos 26, bati o carro. Fraturas e 2 dias de UTI. Aos 27, matei meu gato. Aos 28, transei com um homem de rua. Loucura. Aos 29, concluí Freud, Lacan. Aos 30, morri num acidente aéreo. Aos 31, renasci do trauma. Te conheci. Não sei se foi bom. Creio que de nada vale. Ou é a salvação.
Creio eu que de nada valha.
Vamos entrar no cinema.
-A arte desconstrói o artista. Eu, bela, tenho que suportar todas estas chatas pessoas que vêm me admirar. Coiotes. Delinquentes juvenis caçando autógrafos.
-O gênio pertençe a poucos, como nós.
Gostei muito de você como Eve, Suas críticas são contundentes, Somos perfeitos em nossa hipocrisia, e és uma bela atriz.
- Vamos morrer?
-Talvez. Hoje, quem sabe?
-Seria bom.
-A lâmina está afiada.
-No cinema.
-Tudo tão desconexo.
-Desde o acidente.
-É, estranha maneira de nos conhecermos.
-Corri.
-Acelerei.
-Caí.
-Conversamos na tragédia.
-Tragédia foi eu ter sobrevivido.
-Tens toda razão, Veronika Loss.
-Também te odeio, R. A ., mas te amo desesperadamente.
Nosso filme? Sim, desde o início, O Desespero de Veronika Loss, o título adequado, Diálogos magníficos, Os decorei, O Desespero de Veronika Loss... Veronika...Loss, A lâmina está afiada? Está, É nossa hora, É, sejamos o fim da reprodução, Me beije, Sim..., Agora, me mate, nos vendo, antes do final da sessão, deves continuar, o filme...a facada homicida, agoraaaa, a suicida... daqui a instantes, não teremos mais olhares vivos, ninguém para assistir aos créditos, ainda suspiro, na morte, na morte, meu amor!
-Você não compreende nada.
-Somos tão hipócritas que nem nossa própria hipocrisia pode nos salvar.
Sei que choras durante o sono, pondo a nu todos os meus erros
Deixando em minha boca o sabor de um certo desespero
Mas será que foi tão bom assim que não poderá voltar a sê-lo?
Enquanto o amor nos dilacerar, Enquanto o amor nos dilacerar novamente
Nas sedes do infinito, ó alma,
Em vão te abrasas, prende-te ao solo o corpo,
O corpo não tem asas
A paixão que embalava nossos sonhos vãos
E nossos corpos em neve se converteram
Eternos, Infinitos, Para sempre...
By Lord Esteban Rey Fontan, Ian Curtis e Goethe
Deixando em minha boca o sabor de um certo desespero
Mas será que foi tão bom assim que não poderá voltar a sê-lo?
Enquanto o amor nos dilacerar, Enquanto o amor nos dilacerar novamente
Nas sedes do infinito, ó alma,
Em vão te abrasas, prende-te ao solo o corpo,
O corpo não tem asas
A paixão que embalava nossos sonhos vãos
E nossos corpos em neve se converteram
Eternos, Infinitos, Para sempre...
By Lord Esteban Rey Fontan, Ian Curtis e Goethe
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